Outubro - Novembro - Dezembro 2008
Magazine OTG: No mercado de Tecnologia da Informação, até que o dólar se estabilize, como se adequar à atual situação financeira do mundo?
Joelmir Beting: - Essa situação não se sustenta. Ela é uma bolha e toda bolha cambial explode. O ideal é, em novembro, refazer todos os contatos, todos os planos, até porque é época de planejamento. É ligar os faróis de milha para 2009 e tocar o bonde na estrada, principalmente porque não se pode projetar essa bolha cambial para a economia brasileira do ano que vem. Essa crise de crédito é uma fase da crise, e ela não pode perdurar por mais 90 dias. Quando o crédito estiver retomado volta tudo como era antes: a economia volta a crescer 4% no mundo, 36% nos EUA e 5 ou 6% no Brasil.
Magazine OTG: Como fica o mercado de TI nessa crise?
J.B.: O mercado de TI tem luz própria. O mundo está se informatizando, está se digitalizando e esse mercado tende a continuar crescendo, no mundo, ao redor de 14% e, no Brasil, uma média de 24% ao ano. Quer dizer, é um mercado que no Brasil dobra a cada três anos, uma coisa espetacular.
Magazine OTG: É possível fazer uma projeção para 2009?
J.B.: Neste ano temos um PIB (Produto Interno Bruto) de 5,5% com esse “soluço cambial” e essa questão de crédito pode baixar para 5,2% ou repetir o ano passado, que foi 5,4%. Ou seja, ficaremos 5%, sobre 5%, sobre 5%. Está maravilhoso, a gente dobra o PIB somente a cada doze anos.
Magazine OTG: Haverá a necessidade de uma intervenção do Governo Federal até a estabilidade da economia?
J.B.: O governo vai intervir sobre o mercado que já está sobre intervenção há 25 anos. O mercado financeiro está congelado, tanto que o crédito no Brasil é um terço do PI B e fora é o PI B inteiro. Essa crise foi produzida por farra de crédito. A economia mundial está em um ciclo de prosperidade como nunca antes, teve agora um contrapé produzido pelo sucesso e não pelo fracasso. Esse sucesso chama-se farra de crédito. Quando você tem excedente econômico quer dizer que a riqueza já foi formada. Nesse caso teremos o renascimento desse processo todo e vamos emendar mais uns quatro ou cinco anos em um outro ciclo de prosperidade global e o Brasil é um dos mais favorecidos por isso.
Magazine OTG: Essa crise pode ter propiciado um amadurecimento na economia, principalmente na liberação de crédito?
J.B.: No caso do Brasil não. Nós estamos fazendo uma liberação a conta-gotas e, com essa crise, está se forçando um pouco mais, então nós vamos fechar o ano com 40% do PIB, não mais 35% e a caminho de 45% para 2009. Essa é a lógica certa, até pelas condições do Brasil, de ter a solidez do sistema financeiro e pela gestão de risco do sistema financeiro dá para fazer crédito de 60% do PI B até 2010 ou 2012. Se colocarmos metade do PIB para financiar o PIB, a economia vai aumentar consideravelmente, é essa a condição. Ninguém tem a reserva de potência bancária que o Brasil tem. É um elástico que só falta ser puxado.
Magazine OTG: Diante de tudo isso, o que o brasileiro pode esperar do nosso país?
J.B.: Você fica assustado com o potencial que está à nossa disposição. No agreste nordestino, por exemplo, vamos implantar, daqui quinze ou vinte anos, vários projetos que estão sendo encomendados, um deles é um pomar de 20 milhões de dólares para sucos engarrafados e importados. O mundo agora descobriu a fruta, o suco. As frutas gostam do semiárido, muita água e pouca chuva.
Magazine OTG: Quando colheremos os resultados desses projetos?
J.B.: Em 2020 ou 2030, mas atenção, a China vem para cá fazer compras nas grandes cooperativas. Ela paga um pouco menos e a gente ganha mais, pois a intermediação é retirada, incluindo a intermediação da bolsa de Chicago. Além disso, do seu fundo de dois trilhões de dólares de reservas, a China reserva 10% para uso no Brasil, mas só quando o Brasil criar juízo e montar as marchas reguladoras adequadas com garantia de segurança jurídica de contrato.
Magazine OTG: É possível a formação de uma aliança?
J.B.: Sim, é disso que estão falando. Um processo que já está sendo desencadeado: o Brasil e China 2030. Essa condição já está pesando nos gabinetes lá fora. Onde o Brasil entra está arrebentando, porque vamos continuar fazendo, com um terço do custo deles, coisa melhor que eles fazem para alimentação humana, alimentação industrial e energia.
Magazine OTG: Dá para encarar o Brasil 2030?
J.B.: Não dá. Então é melhor não abrir a porta. Eles estão preocupados com 2030 e não com 2008. Brasil e China é modo de dizer, porque está todo mundo vindo para cá. O mundo vem fazer o Brasil aqui, por isso que estou dizendo, chegou a nossa vez.
Magazine OTG: O que é preciso para não perder essa chance?
J.B.: É necessário fazer uma reforma tributária adequada, uma reforma previdenciária e uma reforma política. Até mesmo um acerto nas agências reguladoras, porque vivemos praticamente um “apagão” institucional e temos que resolver.
Magazine OTG: A educação também deve ser reformada?
J.B.: Esse é outro ponto fundamental. É um grande desafio que a Ásia encarou e já ganhou: fazer a transformação pela educação. Antes disso, temos que fazer a revolução na educação. O nosso sistema educacional é anacrônico e degradável, ele está de costas para o Brasil, para o futuro e para o mundo. Estamos montando mais uma geração que não conta com uma escola de boa qualidade.
Magazine OTG: A educação reflete na formação de mão-de-obra?
J.B.: Sim. Hoje no Brasil temos uma geração que não consegue ler. O profissional deverá estar no seguinte perfil para ter sucesso: ter 30% de talento, 30% de esforço e 40% de caráter. O caráter passou a ser ponto de venda da empresa, do produto e do serviço. É uma grande revolução cultural que está acontecendo, de alcance até político.
Magazine OTG: Nessa transformação há outros desafios?
J.B.: Sim. Na década de 80, nós tivemos uma explosão da tecnologia da informação, que acompanhou a explosão da ciência da computação. Na seqüência, ocorreu a globalização da informação em tempo real. Agora máquinas passaram a conversar com máquinas ao redor do mundo e deu-se a primeira linguagem global. Num mundo com mais de 12 mil idiomas apenas um é universal, o código de barras, que é a linguagem das máquinas.
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